textos curatoriais

 
 

cinco amigos

Do Grupo Vanguarda à Contemporaneidade

Como os sentidos, eles são cinco. Cinco visões de mundo, cinco caminhos, cinco amigos vivenciando todas as artes e juntos e por décadas.
Suas linguagens imagéticas tão distintas têm como certa a mesma origem em passado muito próximo.
Suas composições artísticas tão diversas, personalíssimas, mantêm uma linha comum: a repetição de elementos preferenciais.
Há vilarejos com poucas casas – só as necessárias - a resgatar a memória afetiva da infância; é arte minimalista, nada ali está a mais.
Há poemas parnasianos de rimas ricas em contexto idílico de beira-mares, gentes felizes em torno de prosas, contos e elementos hedonistas.
Há passarinhos, trens, navios e eles ocupam harmoniosamente o mesmo espaço de cores tão vívidas que parecem, a qualquer tempo, brincar em ciranda de roda.
E, desta contemporaneidade divina, eles olham os guardiães do Vanguarda a lhes falar sobre seus próprios elementos.
São todos viajantes no tempo. Viajam todos eles de trem e são fabricantes de paisagens, as mais belas, bucólicas ou urbanas. As que amamos desde sempre pois que são elas a nossa Cidade.

Ligia Testa


macondo no brooklin

Você já esteve em Macondo?

Eu já, tanto em ‘Cem Anos de Solidão’ (Gabriel Garcia Marquez) quanto, pessoalmente, na casatelier de Antonio Peticov, durante inauguração do Instituto que leva seu nome e outras vezes para conhecer um pouco de seu dia a dia e afinar a exposição que faremos dele, logo mais. Suas Macondos se assemelham por várias vertentes. Gabriel e Antonio brincam com o realismo como moleques de rua, travessos, sem limite, chegando à fantasia e à magia sempre com o fio mais tênue do mundo suspendendo a realidade. Se o realismo de um é mágico e o do outro é fantástico, a definição que fique por conta dos intelectuais.

Para mim, o que vale é que quando saímos da Macondo de Peticov, a sensação das cores, dos sons, das formas nos permite vagar um pouco numa espécie de Aracataca, até cairmos de novo na realidade nua e crua do dia a dia de cada um de nós. O atelier-casa de Peticov tem uma espécie de ar impregnado de arte, algo tão forte que se pode tocar com as mãos, é como se a Arte houvesse se apropriado daquele espaço, declarando também a soberana propriedade pelo tempo de estar ali. Acho que Peticov trabalhou com Melquíades, por isso a facilidade em desvendar os pergaminhos imagéticos pelo mundo, assim como aqueles misteriosos que o cigano decifrava e me metiam tanta curiosidade. Ambos recorrem à fantasia para revelar a própria realidade e é isso que torna a nossa possível, sabendo-nos, por vezes, capazes de voltar às Macondos necessárias.

Ligia Testa, julho / 2016


forgotten places (& alone in the dark)

Fabricantes de Auroras Boreais

Aceite isto. Há lugares nos quais você nunca estará. Eles não estão abertos ao público, estão submersos em mistérios, tramas, versões de histórias familiares, sob a ferrugem de cadeados. Estão perdidos no tempo e não há dinheiro que lhes permita roubar imagens com a retina. Aceite, eles são os forgotten places na Alemanha Oriental, resgatados do esquecimento pela fotógrafa alemã Gaby Ehringshausen. Antigos palácios de funções perdidas, para ela ainda são maravilhosos e cheios de vida. Ao entrar neles, ela perde alguns sentidos e ganha outros. Nós também.
Há um cavaleiro cervanteano às soltas, em busca de belezas inesperadas, normalmente, alone in the dark. Notívago, procura árvores solitárias, ilumina-as e rapta-lhes imagens. Paulo Altafin tem olhos felinos para a imagem estética e tecnicamente perfeita e, para ele, não há ângulo impossível, se a meta é impactar.
Eles são fabricantes de auroras boreais.

Ligia Testa, agosto/2015

 


paisagem silenciosa

Ensaio Sobre a Solidão Urbana

A urbanidade grita vozes, fragmento de conversa, sirenes, cantos desafinados, brigas, comemorações. Nada se escuta: os pensamentos do artista vão focados no clique certeiro de sua máquina. Tudo se move em velocidade própria. Só um elemento é comum: a solidão. Ele a vê encapsulando cada pessoa nas ruas.
De repente, uma ordem expressa: “olhe para mim”, grita a cidade! O fotógrafo vê gente que arrasta a alma pelo chão, fingindo-a sombra ou reflexo. É uma cena da peça, apenas.
E caminha atento pelas ruas da cidade que ama, o artista fotógrafo, roubando imagens do dia, do fim do dia, das sombras e reflexos que contracenam com outros solitários e luzes, muros, folhas, tapumes, pedras, fios.

Anoitece, assim, a acidez da noite faz crescer um pouco do silêncio, mais da solidão e muito dos fantasmas: o matiz dos verdes entorpece os vagantes. É sonho? De quem?
Martinho Caires é hábil em captar todas as nuances deste ensaio maravilhoso. A peça está pronta para a estreia: que o barulho interno de cada um não silencie o som da arte. Nunca.

A paisagem urbana, definitivamente, é silenciosa.
Ligia Testa, novembro/2015


infiorescenza

Márcia Novaes não pinta flores.

Ela extravasa em telas as memórias afetivas da infância, em sagrado compromisso com o mundo da botânica, com o qual convive o dia todo, obstinada em mantê-lo aprumado; à noite, atira-se ao prazer de ilustrar esse mesmo mundo por meio de intensas pinceladas.

Márcia não pinta flores.
Ela dá nova vida a inflorescências, pistilos, corolas, floema e nervuras. Vertendo água, luz e sombra necessárias, faz-nos acreditar ver apenas flores. Na dramaticidade das imagens, a artista retrata folhas rasgadas chorando dores e altivas papoulas respirando nuvens.

Márcia não pinta flores.
A folha rústica de sua bromélia é a asa do arcanjo Miguel, o copo-de-leite inspira poesias que ela verte na tela como musseline de seda, a magnólia é a madona que sofre enquanto o céu verte lágrimas cor-de-anil, em delicado pas-de-deux.

Márcia pinta dramas.
No ápice de sua dramaticidade, dá-se ao luxo de pintar em preto e branco e, ainda assim, produzir imagens intensamente coloridas e com formas e profundidade bem percebidas.

Ela pinta extremos.
Enganando-nos os olhos com pretos absolutos e brancos puros, ela nos faz passear atônitos por tons azulados e matizes de ouro. Suas flores brancas flutuam soberanas no vazio da fictícia ausência de cores, em traços fortes, bem definidos e que não deixam dúvidas: Márcia atingiu sua maturidade artística.

LígiaTesta, set/ 2014


tessitura

TereSa tece texturas em telas

Entrelaça os fios da urdidura e da trama para obter tecidos.

Teresa trama teias numa dança estranha, entremeando panos de ternas estampas.

Todas as mulheres de homens em guerra também entrelaçam fios parcos e esperanças poucas, unidas por cantos lamentosos a cappella. Aranhas-tecelãs, todas Helenas. Todas Atenas, Espartas, Troias, Beirutes, Mediterrâneas. Tensas todas as águas, tristes todas as lutas, sagrados todos os mantos tecidos.

Tesouros da tessitura carregados em baús saltam atlânticos. São fardos fartos que se desdobram por vontade própria, emanando aromas múltiplos de lavanda e madeira. Exibidos, quase lascivos, provocam-nos: ‘quem me quer?’ O que serão em breve? Mantos de mesa, de cama, de damas? Que tez tocarão? Tenras, rústicas? Com que aroma se mesclarão?

Teresa ata a natureza à tessitura e tinge matizes inusitados.
Tecer, que ato tão terno quanto dramático é este!

Ligia Testa, abril / 2015


traçados sonoros

Com um encontro informal com o público, o artista visual Renato Stegun abre na manhã de sábado dia 17 de maio, sua exposição Traçados Sonoros, conjunto de pinturas, gravuras e objetos inspirados no universo musical. A exposição será na Quadrante Galeria e permanece aberta ao público até o dia 27. As interfaces entre a pintura e a música são ricas em metáforas e em relações no plano formal e criativo. Compositores observam pintores e pintores inspiram-se em compositores. Música e pintura respeitam-se e inspiram-semutuamente. Sempre uma vitória da arte.

Ao produzir suas obras, Renato deixa-se embalar por essa sinergia da relação entre música e pintura. Suas criações são inspiradas por um universo sonoro eclético, que contempla da música clássica ao jazz, passando pelo rock dos anos 70s. Traçados Sonoros não pretende homenagear a música, mas retratar a dependência que o artista tem da música quando precisa criar. Renato confessa ter um processo catártico de criação, que pode começar fortemente organizada ou desembocar no improviso, desconstruindo todo plano anterior. Aí revela-se uma aproximação entre aspectos distintos, particulares da música e da pintura: de um lado, a dimensão atemporal específica da pintura e, de outro, a articulação no tempo da música. Ao tocarem em conjunto, músicos constroem sua obra compartilhando espaços sonoros, com tempos próprios para o improviso e a repetição. Já pintar é processo solitário, definitivo, mas para o qual Renato encontra espaço para o improviso: um consistente estudo prévio de cores pode dar base para o improviso quando da execução da obra. Nesta exposição, Renato traz em suas telas músicos individualizados, cada qual na expertise de seu instrumento, mas integrados em monobloco, produzindo a tríade som/ritmo/tempo e resultando na música harmoniosa, estampada nas imagens que compõem a mostra. E é ao final desse momento criativo que Renato “ouve” a música que retorna de suas obras. Além das obras em acrílica sobre tela, a série Traçados Sonoros apresenta também gravuras, uma coleção de objetos e arte digital.

Renato Stegun nasceu em Campinas e é formado em Publicidade e Propaganda. Estudou desenho e pintura e tem sólida carreira como ilustrador em projetos editoriais, campanhas publicitárias, humor gráfico, caricatura, charge, cartum e design de objetos artísticos. Participou de mais de oitenta exposições e salões no Brasil, Irã, Romênia, Coreia do Sul, França e Espanha, atuou em programas de TV sobre o tema “Desenho de Humor” e montou, a convite da EPTV/Globo, em parceria, o site de caricaturas FabriCarica

Ligia Testa, maio / 2014


nus cordéis

Toda arte é erótica, declarou o arquiteto Alfred Loos, em 1908. Tudo é sedução, explica o artista Paulo Branco, um século depois, sobre sua última e profícua fase. “Nus Cordéis” é sua mostra individual, com 50 desenhos em grafite e aquarela sobre papel e 18 telas em acrílica de grandes formatos. O nome é uma provocação por conta do erotismo das imagens e da própria expografia, com as obras penduradas em cordas. O traçado de Branco é minimalista, delicado, remetendo a um balé de corpos em movimentos apenas sugeridos, às vezes, um único corpo em êxtase, outras, dois ou mais corpos se juntam no balé dos grafites, acariciados por um véu aquarelado e translúcido. O erotismo - de Eros, deus do amor - tem a carga positiva do desejo sexual ligado ao amor, o que o afasta da pornografia, pelo senso comum. As representações eróticas mais antigas datam da época paleolítica, com suas pinturas rupestres. Ao longo das eras, muitos povos representaram tais cenas: cerâmicas gregas, afrescos em Pompéia, esculturas com atos sexuais pouco convencionais no Peru e comunidades pré-colombianas. Ainda, papiros com a organização da sociedade faraônica no Egito, pintura erótica tradicional no Japão do século 13 ou na China da Dinastia Ming, além do mais que disseminado Kama Sutra da Índia. Na História da Arte, o erotismo retrata a relação entre o homem e sua identidade, com as manifestações eróticas fazendo parte da história de todos os continentes, em todos os tempos. Trata também do encantamento humano diante da própria capacidade de se reproduzir. A interrupção dessa arte, na Idade Média europeia influenciada pela Igreja, só fez com que ela reaparecesse com mais força, invadindo telas, esculturas, livros, gravuras. Se humanidade só existe por conta da infinidade milenar de acasalamentos e nascimentos e, se a arte é, antes de tudo, linguagem dos sentidos em movimento, o nu da imagem corresponde à nudez assumida em comunhão. Viaja-se através de um corpo como se viaja em busca de um planeta a milhares de anos-luz, afirmou o poeta Nicolau Saião. “Nus Cordéis”, sob coordenação artística de Ligia Testa, tem vernissage em 2 de agosto, sábado, na Casa Lola, das 11 às 17 horas, estendendo-se até 31 de agosto. As obras estarão à venda, ótima sugestão para o dia dos pais (no vernissage, ao comprar um presente da mostra, ganha-se a caricatura feita na hora pelo artista). A Casa Lola fica na Rua Sampaio Ferraz, 581, Cambuí, e receberá os convidados com degustação do chopp artesanal da RockBiru, como cortesia, das 14 às 16.

Ligia Testa, agosto /2014